A matéria "Gente bonita em clima de cerveja!" foi retirada do ar depois de pedidos de diversos alunos da Eco. Sem perceber, a equipe do site deixou passar as informações sobre o dia e o horário da chopada que, mesmo publicadas com autorização da organização do evento, são mais que sigilosas - como todo bom ecoíno deveria saber.
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segunda-feira, 21 de maio de 2012
sábado, 19 de maio de 2012
Veja o que vem por aí...
A nova edição do Ecos está saindo do forno. Confira os destaques do próximo número:
terça-feira, 15 de maio de 2012
Uma missão, uma nova geração
A sustentabilidade do planeta é um dos maiores desafios da civilização humana nos próximos anos. Trata-se de um desafio complexo e, ao mesmo tempo, fascinante. Complexo, porque mistura o conhecimento científico ao interesse político, duas forças em constante conflito. Fascinante, porque, da resposta a esse desafio, dependerá a existência das futuras gerações. Precisamos pensar não só no mundo que iremos deixar para nossos filhos, mas também em que filhos queremos deixar para o mundo.
segunda-feira, 14 de maio de 2012
Romance dos astros
Não se conheciam e se amavam irremediavelmente. E era daqueles amores que queimam a pele, congelam a mente e vice-versa
POR LEANDRO RESENDE
“A vida é a arte do encontro”, disse o poetinha num daqueles momentos de epifania do artista. “Ledo engano”, foi o pensamento dele naquela manhã cinzenta. “Encontro tanta gente, tanta coisa nessa vida, mas parece que o destino não quer de jeito nenhum que eu a encontre.” Jamais a tivera em seus braços, jamais vira o brilho dos seus olhos, mas ele sabia que era irrepreensivelmente apaixonado. Sequer sabia como ela era, porém sua existência era subordinada a dela, pelo simples exercício diário de imaginá-la. E com tudo isso em mente, diante de tamanhas impossibilidades e anseios insatisfeitos, não quis sair da cama e tentar colorir seu dia – aquele estava fadado ao monocromatismo mais triste de uma escala de cores.
Enquanto ele desistia de mais um dia de angústia, ela dormia seu sono habitualmente entrecortado: ora sonhava como ele era, ora pensava numa maneira de um dia encontrá-lo. Muita gente dizia que seus olhos brilhavam, mas ela não ligava para qualquer galanteio, fosse de quem fosse. Sabia que seus olhos brilhariam de verdade quando entrassem em contato com os dele e tinha vontade de sentir esse ardor no olhar. Por isso, vagava solitária em todas as suas madrugadas, cantarolando baixinho qualquer coisa de amor, qualquer coisa de sonhos, qualquer coisa de esperança. Seu corpo frio e rijo contrastava com a necessidade de dar vazão ao brilho quente daquele olhar, faróis em meio a uma imensa escuridão.
Não se conheciam e se amavam irremediavelmente. E era daqueles amores que queimam a pele, congelam a mente e vice-versa. Como casal, em termos físicos, mal sabiam eles que eram incompatíveis, pelo menos aos olhos de harpia da sociedade: ele era grande, corpulento, forte e muitos anos mais velho do que ela, frágil, dócil, por vezes tímida, dando seus meio sorrisos, por vezes desinibida, mostrando sorrisos inteiros. No jeito de ser também se diferiam, pois ele era expansivo, irritadiço e jamais deixava alguém tomar o seu protagonismo. Era também um ótimo conselheiro e um excelente amigo, sempre disposto a abraçar com força quem desejasse dele se aproximar. Ela, por sua vez, era mais introspectiva e silenciosa, uma excelente confidente. As pessoas que a escolhiam para o convívio podiam confiar-lhe os mais escabrosos segredos – sua boca era um túmulo, e jamais entregou sequer um casal de amantes que com ela se confessara.
Ele, Sol, o astro-rei, disputado por diversas estrelas do céu, ficava mais cansado a cada dia. Queria ver pela primeira vez a sua amada, encará-la em toda sua plenitude, “amá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la”, como escreveu outro poeta. Ela, Lua, partilhava do mesmo anseio, queria poder dividir os segredos que escutava com outro alguém. E, noutra manhã cinzenta, o Sol quis colorir seu dia, e explicou seus anseios para Aquele que o criara. Disse que estava farto de viver angustiado, queria viver o amor, sabia de sua existência. O Criador não titubeou. Disse que era impossível. Se Sol fosse viver seu grande amor, toda a ordem estabelecida em Sua criação seria subvertida. Atarefado com os problemas criados por sua filha mais levada, a Terra, deixou Sol a ver navios, sem maiores explicações, sem nem ao menos dizer quem era esse amor.
Com o peito insuflado de coragem, Sol resolveu ir ao encontro do seu grande amor. Vagaria pelo espaço, perguntaria as outras filhas do Criador, mas a encontraria. Conversando com Terra, descobriu que ela possuía bilhões de filhos, e alguns deles ficavam admirados olhando para o céu quando ele ia se deitar. Dotado de ainda mais coragem, Sol transformou-se no mais errante ser concebido pelo Criador, o humano, e desceu à Terra.
Astro que era, não percebeu o desarranjo que sua ida à Terra provocou naquelas estranhas criaturas chamadas “humanos”. Elas sentiam frio, sentiam medo e se perguntavam a todo instante: “Onde está o Sol, onde está o Sol?” Vagando por entre aquelas criaturas, esperando que alguém começasse a olhar pro céu, Sol ria, pois estava ali, no meio deles. Quando já se cansara de tanto andar, o céu cinzento adquiriu um tom branco platinado, lindo, e alguns começaram, admirados, a olhar para o horizonte e ver o astro que despertava.
Sol não pestanejou e reconheceu ali a amada dos seus sonhos, a fonte de suas angústias e seus desejos. Era ela. Os humanos a chamaram de Lua, e Sol se indagou o porquê de o Criador ter escondido dele tão magnífica criação. Depois de um brilho intenso, a luz de Lua gradativamente foi ficando mais fraca para o desespero de Sol, que nem a contemplara direito. Foi aí que ele se revelou um astro e pediu que Lua fosse sua companheira. E ela, com o brilho fraco, disse repetidas vezes que não, até que sua luz desapareceu no horizonte.
Admirado e assustado com tudo aquilo, o Criador interveio e trouxe Sol de volta para o Céu. Era chegada a hora de colocar Sol e Lua frente a frente. Ele estava cansado, mas mesmo assim não deixou de ficar embevecido com a beleza de Lua. Ela respirava ofegante, exausta e fraca, pois seu brilho se esgotara muito rápido. Fixou seu olhar na opulência daquele que era o objeto de procura das suas madrugadas.
O Criador pôs-se a falar. Explicou que Sol e Lua formavam um casal, mas que jamais poderiam se encontrar. Ele fornecia o brilho que emanava dos olhos dela. Ela fornecia-lhe o descanso necessário para que seu trabalho fosse desempenhado dia após dia. Um dependia do outro, mas não poderiam se cruzar: seria perigoso para Seus netos, os humanos, filhos da Terra. E seguiu com as explicações, que Sol e Lua já não estavam mais escutando. Queriam aproveitar aquela troca de olhares, que seria a última. Lua nem deu bola quando Saturno passou perto lhe oferecendo anéis para reavivar seu brilho. Seu Universo estava à sua frente, não precisava de sequer uma palavra, de sequer um gesto.
E foi aí que fizeram a combinação decisiva, sem ao menos balbuciar uma sílaba – se falaram no olhar. Dali em diante teriam grande influência na Terra, e quando o Sol fosse o protagonista do momento, se encarregaria de encher de coragem todos aqueles dispostos a lutar por qualquer coisa de amor, qualquer coisa que valha a pena. Quando a Lua fosse substituí-lo, estaria incumbida de ouvir, aconselhar e acalentar os que se lançavam a procura do amor, abençoando seus sucessos e revertendo seus fracassos. E dessa combinação nasceu Tempo, primeiro compreendido como a marcação da sucessão cotidiana de Sol e Lua. Depois, assim os humanos aprenderam, Tempo foi visto como o grande remédio para os amores incompreendidos – e como a maior semente dos amores duradouros.
Diante de tudo isso, Sol jamais deixou de colorir uma manhã cinzenta. A cada canto de galo que ouviu, desde aquele dia até a eternidade, acordou feliz.
(*) Conto livremente inspirado na canção homônima de Luis Carlos da Vila.
Cinema em sala de aula
Ex-aluna de Rádio e TV, Carolina Real trocou a carteira pelo quadro-negro
POR PEDRO MUXFELDT
O problema é que quem se forma pela Eco em Rádio e TV sai com diploma de “radialista”, o que faz a oferta de empregos diminuir. A própria Carolina passou por uma situação indigesta: quase foi recusada em seu emprego atual, pois radialismo não constava como possibilidade de curso dentro do edital da vaga. Por sorte, no dia da inscrição ela foi atendida por uma funcionária que entendeu a situação e a manteve na disputa. Hoje ela é favorável à prometida mudança de nome da habilitação para audiovisual.
POR PEDRO MUXFELDT
Passava das 15h de uma tarde de janeiro quando a ex-aluna de Rádio e TV Carolina Real chegou sob forte chuva à portaria da Eco. Aos 27 anos, ela tem um sorriso largo e os cabelos negros na altura dos ombros. Longe da escola desde o final de 2008, quando se formou, ela logo se impressionou com a melhora de infraestrutura do Palácio Universitário. “No meu tempo as coisas não eram assim”, comentou, enquanto reparava nas televisões de tela plana e nos aparelhos de ar condicionado, presentes em quase todas as salas.
Desde o segundo ano de faculdade Carolina já trabalhava. O conselho que deu para quem está cursando Rádio e TV atualmente é encontrar um nicho de atuação que melhor se encaixe com suas habilidades e áreas de interesse para, a partir daí, buscar estágios dentro do setor. Ela, por exemplo, escolheu a habilitação por causa de seu gosto por cinema. Mas, já no primeiro trabalho, como mediadora de visitas guiadas do Centro Cultural Banco do Brasil, surgiu o interesse pela educação. Depois de um ano no CCBB, foi trabalhar como pesquisadora de novas exposições na Casa da Ciência, ligada à UFRJ.
O interesse pela relação entre cinema e educação ganhou força em 2008, quando se tornou coordenadora pedagógica do Cinema para Aprender e Desaprender, projeto de pesquisa e extensão da faculdade que trabalha com os alunos do Cap UFRJ em produções audiovisuais. Hoje, a ex-aluna é professora de práticas digitais no curso de produção audiovisual da Escola Adolpho Bloch. “Até o ano passado, trabalhava 60 horas, sendo 40 como editora de um site. Hoje são só 20 horas de escola e estou muito satisfeita”, avaliou. “Tenho estabilidade e tempo para outros projetos.”
Carolina foi bastante elogiosa à Eco. Sustentou que, de uns anos para cá, houve um bom desenvolvimento do corpo docente, especialmente de Rádio e TV, que hoje conta com professores mais sérios e capacitados. Mesmo assim, ela enxerga grande dificuldade para quem conclui a habilitação: a nomenclatura do curso.
O problema é que quem se forma pela Eco em Rádio e TV sai com diploma de “radialista”, o que faz a oferta de empregos diminuir. A própria Carolina passou por uma situação indigesta: quase foi recusada em seu emprego atual, pois radialismo não constava como possibilidade de curso dentro do edital da vaga. Por sorte, no dia da inscrição ela foi atendida por uma funcionária que entendeu a situação e a manteve na disputa. Hoje ela é favorável à prometida mudança de nome da habilitação para audiovisual.
Carolina atua também no campo de pesquisa. É mestre em educação pela Puc-Rio – optou por outra universidade pois a UFRJ não dispõe de uma linha ligada à educação. Ela tem planos de fazer doutorado, e acredita que a carreira acadêmica é uma boa alternativa para quem conclui a habilitação. Segundo a ex-aluna, há uma gama enorme de temas e universidades disponíveis. Mas o conselho é o mesmo: buscar um nicho partindo de suas áreas de interesse.
Entre lembranças da época de faculdade, Carolina concluiu que sua escolha foi acertada. “Tenho meu trabalho, a remuneração é justa e me sobra tempo para o lazer”, ponderou com um sorriso.Como todo mundo gostaria.
Memórias de uma década
Meus primeiros anos de Eco foram alguns dos piores da escola: não havia dinheiro e os roubos de materiais eram frequentes. Para falar a verdade, nem sequer havia muito o que roubar
POR GUSTAVO BARRETO
Entrei na Escola de Comunicação da UFRJ no dia 11 de setembro de 2002 – sintomático, diria eu – após ter passado por uma verdadeira guerra no vestibular, sem figura de linguagem. Os estudantes enfrentavam o crescente conservadorismo e a “privataria” que assolaram o Brasil e o mundo durante os anos 90 e início da década seguinte. O Governo FHC insistia em tentar minar a democracia interna e a autonomia das universidades públicas, dentro do seu bem-sucedido projeto de sucatear e privatizar o ensino público brasileiro. Entre outros ataques à UFRJ, o então ministro da Educação, Paulo Renato Souza, escolheu o terceiro colocado na eleição de 1997, José Henrique Vilhena, para assumir a Reitoria. Tratava-se de um interventor, na pior acepção do termo.
Meus primeiros quatro anos de Eco foram alguns dos piores da história da escola, segundo relataram diversos professores à época, abertamente ou sob forma de “confissão”, após o ocorrido. A instituição parou de receber apoio financeiro (em parte pela falta de projetos), possuía uma gestão extremamente deficiente, os roubos de materiais eram frequentes e, para falar a verdade, nem sequer havia muito o que roubar. O Laboratório de “Multimídia”, atualmente equipado com mais de duas dezenas de computadores modernos, era um tecnocemitério, com apenas três PCs velhos que serviam, no máximo, para jogar paciência. E haja paciência.
Durante quase toda a administração do então diretor José Amaral Argolo, ouvíamos promessas de que novos laboratórios seriam criados, ou de que novos equipamentos e professores estavam por vir. Para mim – um estudante de Rádio e TV – era desgastante não enxergar qualquer possibilidade de vivenciar a futura profissão dentro da própria Eco. Se quisesse botar a mão na massa, era preciso fazer um estágio. Eu abandonei a estratégia, que me parecia um tanto quanto estúpida, e fui aprender a fazer jornalismo na mídia alternativa ou sindical. A falta de convivência frequente com chefes me fez entender um pouco mais sobre o jornalismo cidadão. Sobre o jornalismo, em geral.
O que ocorreu na gestão Argolo – que teve, registra-se, apoio de alguns dos mais “respeitados” professores da Eco – foi exatamente o contrário: a administração acumulava denúncias de má utilização dos recursos públicos e o então atuante Centro Acadêmico precisava dedicar quase todo seu tempo a reivindicar melhorias, denunciar desvios de conduta e de verbas e buscar informações pouco ou quase nada acessíveis para os estudantes. Participação nem pensar. Na expressão de Argolo, me lembro certa vez, era “temerário” permitir que os “garotos” (os alunos mais jovens) usassem os equipamentos e os recursos públicos da escola. Temerário!
Em 2005, decidi enviar para todos os alunos que estavam ao meu alcance uma carta denunciando detalhadamente a tentativa da gestão de sucatear a Eco e, como se isso não bastasse, perseguir os alunos que não estivessem de acordo com ele e sua trupe. Após uma contundente e persistente ação do Caeco e do DCE, que enviaram denúncias que iam da perseguição a funcionários à má utilização de verba pública, o reitor Aloísio Teixeira assinou no dia 11 de maio uma portaria instaurando uma comissão de sindicância destinada a apurar irregularidades na direção da escola.
No próximo dia 15 de junho completam-se sete anos desde um memorável ato que contou com uma Assembleia de Estudantes e a participação de discentes de todos os cursos – incluindo os de direção teatral, que apresentaram esquetes, e os do curso de radialismo, que levaram vídeos. O gabinete da direção foi ocupado por cerca de cem estudantes, em um protesto cuja legitimidade foi reconhecida até mesmo pela Reitoria e por parte do corpo docente. Os estudantes reivindicavam a elaboração de um projeto pedagógico, reformas físicas na escola, a exoneração de Argolo e a paridade nas eleições para escolha de dirigentes.
Após o sucesso da manifestação, a perseguição promovida por Argolo passou a incluir um processo na Justiça contra uma das lideranças, o então estudante Pedro Martins, instaurado cerca de um mês após a ocupação. Apesar desta ter contado com apoio de diversos CAs, do DCE e de centenas de estudantes em toda a UFRJ – a própria Reitoria pagou posteriormente assistência jurídica a Pedro –, Argolo decidiu processar apenas uma pessoa por “danos morais”. Além do processo civil, entrou ainda com uma ação criminal contra ele e mais quatro alunos – Leila Leal, Carolina Barreto, Carlos Leal e Laura Abrantes, todos membros do DCE – por “desacato”. Eles chegaram a ser intim(id)ados a prestar depoimento numa delegacia em Botafogo.
Em 2007, lamentavelmente, Pedro foi obrigado a pagar 3 mil reais a Argolo, após decisão do STF. A decisão, comentou Pedro à época, mostrou todo o desconhecimento do Judiciário sobre a representatividade dos conselhos estudantis. Atualmente, Argolo encontra-se curiosamente cedido à Escola Superior de Guerra.
Desde 2002, me formei em Rádio e TV, fiz mestrado e estou no doutorado – tudo na Eco. E cá estamos em 2012. A professora Ivana Bentes, uma das que considerou legítima a ação de 15 de junho, foi reeleita recentemente e garantiu maior estabilidade à escola. A Eco retomou os projetos, reinaugurou sua Semana de Jornalismo, fez um dos maiores eventos nacionais de mídia em 2008 – o Fórum de Mídia Livre – e se integrou ao cenário político-cultural do país. E isso não foi feito por uma classe dirigente de sábios iluminados. Foi feito com participação estudantil em parceria com o corpo docente e funcionários.
Não sei que lição posso tirar desses dez anos de Eco. Mas o 15 de junho foi um desses momentos especiais. Durante minha vida acadêmica, que até hoje persiste – e insiste –, sempre tive receio de me tornar um daqueles alunos que vê a universidade como um trampolim para o mercado. A maior parte dos estudantes pouco se importavam com o projeto pedagógico. Para que projeto se é somente o selo que importa? Mas o que havia no mercado de tão importante, pensava eu, que poderia substituir meu compromisso cidadão com a educação pública, gratuita e de qualidade (por exemplo)?
Minha primeira experiência no “mercado” foi na Fiocruz, onde novamente aprendi que a união daqueles que lutam por justiça é muito mais importante do que valores neoliberais mesquinhos que só almejam o lucro e o consumo inconsequente. Depois, só confirmei a mesma percepção em outros momentos de militância dentro da profissão. O “mercado” valoriza aquele profissional que questiona e compreende criticamente o mundo, desde que ele esteja à venda.
Mas, felizmente, existem pessoas que nunca estarão à venda. Eis uma valiosa lição ecoína.
Música de roda
A disposição dos chorões em preservar um dos gêneros mais ricos da MPB
POR BERNARDO PEREGRINO E JONAS MOURA
“Tudo o que a gente pode fazer de forma improvisada a gente faz”. A frase é de Maurício Carrilho, violonista, arranjador e um dos fundadores da Escola Portátil de Música. Todos os sábados de manhã, os portões do campus da Unirio, na Urca, se abrem para que mais de mil matriculados nos diversos cursos oferecidos sejam submetidos ao misto de improviso e organização que sustenta o método de ensino da EPM. A base de tudo é a experiência dos professores, músicos profissionais comprometidos em preservar – e renovar – um dos gêneros musicais mais tradicionais da cultura brasileira: o choro.
A iniciativa surgiu em 2000 de forma despretensiosa, como contou Maurício, enquanto fumava seu cigarro de palha. “Nos anos 90, eu e um grupo de músicos dávamos aulas em festivais de música popular. Uma das alunas era filha da diretora da Sala Funarte e propôs que fizéssemos uma oficina de choro lá. Era algo simples.” Em pouco tempo, no entanto, o número de alunos duplicou, surgiram interessados em investir na ideia e a escola logo se consolidou como centro de difusão da MPB.
Promovida pelo Instituto Casa do Choro, ela conta atualmente com 28 professores, que ministram teoria e prática no campus da Urca. Maurício lembrou que o nome da escola veio do produtor e compositor Hermínio Bello de Carvalho. “Não tínhamos um local fixo, então ele chamava de ‘portátil’. E como era um projeto que permitia que fizéssemos incursões, festivais e minioficinas, acabou pegando”, contou. “É um nome simpático.”
Toda essa usina portátil de conhecimento musical é patrocinada pela Petrobras, parceira do projeto há sete anos. Mas Maurício esclarece que 60% das despesas são cobertas apenas com a contribuição dos alunos. Ocasionalmente, vendem camisas para incrementar a arrecadação, como no sábado em que a reportagem do Ecos visitou o ensaio.
A flautista Maria Souto entrou na EPM como aluna em 2004. Ela se formou em ciências sociais, mas o contato com a música foi decisivo: em 2009, retornou à escola, mas como professora. Ela considera que o diferencial está no corpo docente. “São todos músicos do gênero, que estão no mercado, gravando discos e tocando com outros profissionais. Isso tem a ver com a forma original de disseminação dessa música, pelas rodas de choro. E eles conseguiram sintetizar isso num projeto educacional.”
No fim das aulas, todos os alunos se reúnem no jardim do campus e a tradição das rodas é invocada com ainda mais força. A combinação de cada naipe de instrumentos resulta no bandão, cujo repertório é ensaiado durante as aulas. “Temos o cuidado de, para cada música mais difícil, colocar outra mais fácil”, pontuou Mauricio. Segundo ele, essa estratégia serve para que os alunos de todos os níveis possam participar do ensaio.
Assistir ao bandão dá dimensão da quantidade de cursos oferecidos pela escola. Além dos muitos instrumentos, os alunos podem fazer cursos de composição, harmonia e canto, entre outros. Foi, aliás, o que chamou a atenção de Leandro Resende, aluno do terceiro período da Eco que se matriculou nas aulas de violão em março. “Lá eu entro em contato com grandes músicos e tenho a possibilidade de estudar coisas diferentes, como teoria musical.” Na teoria ou na prática, no improviso ou na organização, uma coisa é certa: o choro está bem acolhido, pelo menos do lado de dentro dos portões da Unirio.
Curiosidade não mata checador
O que fazem os profissionais de uma estirpe cada vez mais rara nas redações
POR DÉBORAH COUTINHO
Apurar é parte importante do trabalho de todo repórter, mas ter uma mãozinha de alguém especializado só na confirmação dos fatos faz toda a diferença. Esse é o trabalho do checador, uma figura que, apesar de ter sido presença obrigatória no passado, é hoje uma raridade nas redações. No Brasil, algumas publicações ainda mantêm o cargo, como as revistas Veja e Piauí. É na Piauí, aliás, que estagia há pouco menos de um ano a aluna Luiza Miguez, do quinto período da Eco.
Até pela falta de demanda, é difícil encontrar profissionais da área – que, por isso mesmo, costumam ser bem remunerados. Assim, quando o antigo checador deixou o cargo na Piauí em outubro do ano passado, Mario Sergio Conti, à época chefe de redação da revista, contratou Luiza, que recebeu um treinamento especial. Seu livro de cabeceira virou The Fact Checker’s Bible: a guide to getting it right (em português, algo como: A Bíblia do Checador de Fatos: um guia para acertar) de Sarah Harrison Smith, que já trabalhou na New Yorker e na The New York Times Magazine.
Na última semana de cada mês, quando ocorre o fechamento da edição, Luiza se dedica a verificar, em todas as matérias, a validade e a exatidão dos dados, eventos, números e até da grafia dos nomes de entrevistados. Suas grandes ferramentas são a internet e o dicionário. “Mas Wikipedia não é fonte para nada. É possível começar a pesquisa por lá, mas não dá para confiar”, alertou. “É melhor usar sites oficiais, mas mesmo assim é preciso cuidado. O ideal é ligar para a assessoria de imprensa e confirmar a informação.”
Um bom checador deve ter muita cultura geral e precisa ser ágil, criterioso e perfeccionista – além, é claro, de saber trabalhar sob pressão. “Tem que ser um bom jornalista”, resumiu Luiza, que adora ler as matérias que checa. “Dá muito trabalho, o prazo é curto, mas é muito interessante ver as escolhas do repórter.” E, se os repórteres tem que ser criteriosos durante a apuração, os checadores, ainda mais – até porque a responsabilidade por dados errados é deles, e uma checagem mal feita afeta a credibilidade do veículo. “O jornalismo tem suas falhas, quase toda matéria tem algum problema”, explicou a estudante. “E para toda matéria existe um leitor chato, que vai apontar os erros.”
O aumento da velocidade da veiculação de notícias trazido pelas novas tecnologias suscitou debates no campo da checagem. Em uma edição recente do Observatório da Imprensa, o jornalista Mário Magalhães, da Folha de S. Paulo, assinalou que, por um lado, com a pressa em dar o furo, os erros aumentaram. Mas, por outro, os desvios estão agora submetidos ao olhar atento de um público muito maior, que aponta os deslizes em redes sociais como o Twitter. “Como a internet permite o acesso a uma profusão de fontes”, escreveu, “haverá – já há – milhões de checadores de informações.”
Comunicação por quê?
Ariel chegou perdida e se encontrou. Rakel estava decidida, até que a certeza esmoreceu
POR ANDRESSA GUERRA E RAPHAELLA ARRAIS
Quando se pensa em um grupo de universitários do mesmo curso é normal imaginar pessoas com perfis semelhantes e interesses e sonhos bastante parecidos. Nas faculdades de comunicação social, no entanto, a realidade é outra. Por seus corredores circulam estudantes com ambições completamente diferentes — e até mesmo desprovidos de uma, já que encontrar alguém que entrou nesse meio por acaso é corriqueiro.
A procura de indecisos pelo curso é grande e a explicação começa no vestibular, no qual os estudantes têm que optar por uma área entre humanas, exatas e biológicas. “Usei como critério as minhas específicas, pois sempre gostei mais de história e português na escola”, contou Ariel Menezes, estudante do segundo período da Eco.
Além disso, o leque de possibilidades que as habilitações oferecem é um enorme atrativo para quem não sabe o que fazer. Isso porque, ao invés de entrar na universidade com a profissão determinada, os alunos têm tempo para experimentar. “Apesar de ter começado a faculdade sem saber o que queria, já na primeira semana tive contato com algumas atividades nas oficinas para os calouros”, explicou Ariel. A oficina foi oferecida pelo Limk. Atualmente, ela é bolsista do grupo e se diz satisfeita com a experiência. “Hoje me encontrei. Agora tenho certeza que quero fazer publicidade, com ênfase em planejamento e marketing.”O inverso também pode acontecer, como no caso de Rakel Cogliatti, que ingressou na Eco certa de sua escolha por jornalismo. Hoje, no entanto, se dedica às artes cênicas e está envolvida em um par de projetos ainda em fase de desenvolvimento. “Quando entrei, já imaginava tudo. Como ia ser, o que ia aprender e que caminho queria seguir”
caminho queria seguir”, relembrou a atriz-jornalista, formada no fim de 2010. “Doce engano. Com o tempo, tudo mudou.”
Apesar de não ter seguido a carreira jornalística, ela não desmerece o tempo passado na universidade. “A faculdade abriu a minha mente e teve um papel importante na minha evolução, não só profissional, mas pessoal. Hoje a minha paixão é outra, mas tudo que eu aprendi foi muito válido e útil para o meu trabalho”, disse.
O vínculo com o jornalismo se manteve. Hoje, além dos trabalhos como atriz, Rakel escreve algumas matérias como freelancer para a revista Gypsy, voltada para o meio artístico. “É difícil abandonar completamente a profissão. Ela que ela tem um charme quase irresistível”, justificou. “Apesar de ser um ofício complicado e no qual o retorno financeiro nem sempre corresponde ao esforço, ela te retribui de outras maneiras igualmente gratificantes.”
Como Ariel, Rakel também foi bolsista em seus tempos de Eco. Antes de começar a estagiar — ela passou dois anos trabalhando na produção de artes cênicas do Oi Futuro — , foi repórter do TJUFRJ. Em sua opinião, foi se envolvendo em projetos como esses e estagiando que pôde ter certeza a respeito do que queria. “No começo do curso, há muita novidade e empolgação”, ponderou. “Só mais tarde, quando elas vão diminuindo, você começa a ver o que é de fato a profissão. O dia-a-dia pode ser bem diferente do que se lê nos livros.”
Estórias e histórias de luta
Emília e Capitu passaram por cima de muitos homens. Dona Ruth e Elena também
POR ANA CLARA VELOSO E PAULA FERREIRA
Emília e o desquite
Sabe aquele papo de que “quem nunca teve dá mais valor”? É o que explica a fala desenfreada de Emília, a boneca mais famosa da literatura brasileira. Muda de nascença, foi só tomar a pílula falante do Dr. Caramujo que saiu expondo suas opiniões a torto e a direito.
Nem bem os movimentos feministas se consolidaram na cidade, a menina já discursava sobre as questões de gênero no Sítio do Pica-Pau Amarelo. Nesse ponto, aliás, não podemos tirar o mérito de D. Benta, Tia Anastácia e Narizinho. Em um sítio em que as mulheres lideravam a cozinha e a administração, passando pela contação de histórias e pela escolha da brincadeira da vez, a boneca não podia ser diferente. E, se ela tinha conquistado uma voz, ia usar em favor de tantas outras que eram emudecidas todos os dias.
Questionava comportamentos masculinos e denunciava abusos de poder. Não poderia assim, subjugar-se a um marido. Casada com Rabicó, a paciência da boneca de pano logo se esgotou. Com os nervos à flor da pele, Emília inovou e tomou uma decisão que antes não cabia a mulher alguma: desquitar-se. Em um tempo em que a situação nem era legalmente reconhecida, ela se fez entender pelas palavras irreverentes e deixou claro não se subodirnar a um “porco idiota”.
Elena Rodrigues e as urnas
Durante as campanhas eleitorais da década de 80 na Baixada Fluminense, políticos endinheirados contratavam moças bonitas para panfletarem nas ruas, desfilando com tops e shorts curtos. Queriam passar uma “boa imagem” aos homens, enquanto o voto dessas mulheres nem eram disputados. Afinal, elas votariam em quem os maridos votassem.
Indignada, Elena Rodrigues se juntou a outras companheiras em encontros regulares. “Você pode não acreditar, mas mulher sabe votar!”, era o lema das reuniões. Com a experiência de quem já participara de outros tantos atos e vencera em muitos, a jovem de vinte anos era uma das oradoras do grupo. Preparava comícios e discussões e convocava as mulheres para a rua.Os encontros começaram com cerca de dez pessoas, mas logo cresceram. No decorrer de um ano, o interesse aumentou e as adeptas se multiplicaram. Política tinha virado papo de dona-de-casa. Os votos guiados pelos “chefes da família”, se não acabaram, ao menos diminuíram muito. A troca do poder de escolha por quilos de alimento também. Durante a campanha para as eleições de 82, era fácil reunir em um dia mais de 200 mulheres que já expunham sem medo suas opiniões. E, um ano depois, as ruas estavam cheias delas, todas lutando no movimento pelas diretas – e, claro, pelo fim da ditadura militar no Brasil.
Dona Ruth e o Estado Novo
Passar manteiga no pão era um grande gesto em 1932. Era assim que muitas mulheres contribuíam para a mudança do cenário político da década de 30. Com apenas doze anos, Ruth Guimarães ajudava a preparar o lanche dos soldados paulistas que encabeçavam a Revolução Constitucionalista.
A faca foi substituída pela máquina de escrever e, já no Estado Novo, a moça cursava Letras Clássicas na USP e ajudou a criar uma oficina clandestina de publicações contra o regime. Ruth passou então a receber cartas com trechos rasurados dos colegas de redação e tinha que adivinhar as palavras que a censura havia eliminado de suas correspondências – talvez tenha vindo daí a alcunha de “bruxa” que tanto se orgulha de carregar.
A bruxa, porém, não usou magia para se tornar a primeira escritora negra a se projetar nacionalmente. Arriscando-se a falar de folclore e a valorizar a cultura popular em um país marcado pela exaltação da cultura europeia, conquistou espaço. “De repente descobriram que eu sabia escrever”, contou Ruth. Hoje, ocupa a cadeira 22 da Academia Paulista de Letras.Aos 92 anos, no entanto, ela não se limita a tomar chá com os acadêmicos: é também secretária de Cultura de sua cidade natal, cumprindo com excelência as obrigações que a função requer. Dona Ruth demonstra até hoje a força e pró-atividade de uma mulher que nunca se conformou em deixar as coisas como estavam. Seu lema? O tempo respeita quem dele sempre fez bom proveito.
Capitu e os olhos de ressaca
Carregar com honra o peso das convicções e proclamá-las sem pudor para os que querem e os que não querem ouvi-las são feitos corajosos. No tempo em que as mulheres eram privadas até mesmo de ter personalidade própria, “ciganas oblíquas e dissimuladas” era o rótulo que recebiam as que ousavam se pronunciar. Maria Capitolina Pádua era uma dessas ciganas.
O maior erro de Capitu, como é mais conhecida, era ser muito menos tola do que lhe impunham a época e os costumes. A ousadia de mostrar os ombros no teatro e de tratar um homem com ironia era inaceitável em uma moça de seu tempo. Certamente, na opinião dos vizinhos, não fosse o imenso amor de Bentinho, ela jamais teria se casado. Ora, quem além dele gostaria de desposar uma menina tão petulante? Que absurdo imenso uma moça de catorze anos ser esperta daquele jeito. Como os pais não deram um corretivo na pequena? Capitu ficou nos idos tempos do século XIX, entretanto aqueles que lhe apontavam o dedo continuam presentes até hoje.
Tivesse ela frequentado o Rio de Janeiro dos anos 2000, continuaria sendo alvo de críticas. Afinal, o tempo passou, mas a época e os costumes continuam, sutilmente, exigindo a tolice das moças. Encontraria a crítica velada e disfarçada dos que negam o preconceito, mas o exercem de maneira religiosa. Melhor passar por isso no século XIX, tempo em que, ao menos, as mulheres tinham consciência da dificuldade de pertencer ao gênero. São rigorosos os anos do novo milênio: iludem e fantasiam na cabeça da maioria que a igualdade está aí, como se já não fosse mais preciso lutar.
Entre Heidegger e Platão
Psicanalista, advogado e filósofo, Márcio Amaral tem um sonho desde criança: quer virar santo
POR CAROLINA CARVALHO
Eram 11h de uma quarta-feira, quando o professor Márcio Tavares D’Amaral entrou na sala 140 da Eco. Um aluno o esperava na porta e perguntou se a aula começaria sempre no horário. “Sim, porque agora voltei a ser pontual”, divertiu-se, ajeitando a cadeira onde se sentaria pelas próximas duas horas, falando para uma turma de oito alunos da pós-graduação. Eles chegaram aos poucos e foram cumprimentados individualmente pelo professor – com apertos de mãos aos homens e dois beijinhos nas mulheres.
O tom da conversa foi informal, apesar de girar entorno do pensamento do filósofo Heidegger. A descontração é marca de suas aulas. Dois dias depois, em uma sala repleta de estudantes do primeiro período, ele narraria sua viagem à Grécia, quando entrou nas escavações arqueológicas da sala de aula de Platão e pegou três pedras como souvenir. “Portanto, frequentei a Academia de Platão”, concluiu aos alunos. “Se quiserem, trago as pedras para vocês verem.” A cena parece não combinar com o homem de óculos, cabelos bastante grisalhos e de 64 anos que passa sempre bem arrumado pelos corredores da Eco. Mas Márcio Amaral não é mesmo uma pessoa previsível.

“Eu achava que seria advogado”, contou o catarinense de Blumenau, rodeado por fotos de esculturas gregas e livros de filosofia na sala do Idea, o Laboratório de História dos Sistemas de Pensamento, núcleo de pesquisa da Eco fundado e dirigido por ele. “Tinha admiração ideológica pela profissão.” O amor pelos tais sistemas de pensamento, no entanto, já existia desde que o jovem Márcio, aos doze anos de idade, encontrou um livro de história da filosofia na biblioteca do pai, volume que virou seu livro de cabeceira. Resolveu que se dedicaria à área por conta própria, sem desistir do direito.
Márcio nunca colocou os pés num tribunal. Durante a faculdade, em meio à ditadura militar, o envolvimento com o movimento estudantil tornou-se prioridade frente às carteiras das salas de aula. “Sempre fui bom aluno, mas não tinha tempo para estudar”, explicou. “Estava ocupado com coisas que me pareciam mais importantes.”
Em 1971, recém-graduado pela Puc, Márcio chegou à Eco. Passou a ensinar teoria da informação e da linguagem em “parceria” com Muniz Sodré. “Na época, 80% dos professores eram contratados como auxiliares de ensino”, relembrou com seu tom de voz calmo. “Havia um contrato precário e só nos tornávamos oficialmente professores depois de fazer o mestrado.” A denominação, na verdade, era só uma formalidade, uma vez que, além de lecionarem, os auxiliares chefiavam departamentos, regiam disciplinas e até inventavam novas matérias para a grade.
Desde então, ele nunca se afastou da escola que diz considerar sua casa. Em 2000, pediu sua aposentadoria e se tornou professor emérito, o que o deixou livre de obrigações burocráticas e do regime de dedicação exclusiva. “Cheguei a trabalhar dezesseis horas por dia, até ficava doente”, rememorou.
Um dos motivos que o levou a tomar a decisão foi a vontade de se dedicar mais a seu consultório de psicanálise, que inaugurara em 1996. O interesse pela clínica freudiana surgiu quando ele mesmo era analisado, anos antes. Decidido a abandonar o divã e trocar de posto, ingressou no Círculo Psicanalítico do Rio de Janeiro, uma sociedade de formação de psicanalistas. “Hoje já fechei meu consultório, porque... chega, já deu”, suspirou. “Conforme meus pacientes foram se dando alta, não assumi novos. Ainda tenho duas e, um dia, talvez não tenha mais ninguém.” Márcio não vê na atividade uma fonte de renda. “As pessoas pagam o que podem.”
Além da psicanálise, outra razão que o levou a diminuir a carga de trabalho na Eco foi o Instituto Brasileiro dos Direitos das Pessoas com Deficiência, fundado por sua esposa em 1998. O envolvimento com a instituição, que no início se organizava em torno de um escritório de advocacia, fez com que o direito voltasse à sua vida: nos meses seguintes, ele estava de volta ao campus da Puc para estudar Processo Civil – dessa vez, como ouvinte. Ele é presidente do IBDD e participa de reuniões semanais com os advogados da Ong para analisar os processos. “Toda sexta-feira saio batido da aula do primeiro período e vou direto para lá”, comentou.
Filho de pai católico e mãe protestante, quando criança Márcio queria ser padre franciscano – e santo. A segunda ambição, de acordo com ele, ainda permanece. Mas houve tempos em que esteve brigado com a religião. Depois de anos de estudo sobre arqueologia bíblica, o professor deixou de acreditar nos milagres. Afinal, eles já haviam sido provados cientificamente. Passou, então, mais de trinta anos em um limbo, em que oscilava entre o ateísmo e o agnosticismo. “No começo, eu tinha aquela arrogância juvenil do ateísmo”, confessou. “Mas depois fui sentindo saudade de Deus. Eu preferia que Ele existisse, mas, que pena!, não acreditava.”
Aos 52 anos, no entanto, a certeza da existência Dele ressurgiu, e Márcio recuperou a fé. A virada aconteceu no avião, durante uma ida a Blumenau, enquanto lia A eminência, de Morris West, um romance sobre um cardeal cotado para ser o próximo papa, mas que perdera a fé. Continuou sendo padre porque era o que sabia fazer. “Eu pensei: como pode, ele é um cardeal e não tem fé, e eu não sou nada e tenho. Essa foi a hora em que Deus me tocou”, contou. Pedi-lhe que me explicasse melhor o que se passara em seus pensamentos. “Não me pergunte mais do que isso, porque simplesmente não sei explicar”, respondeu.
Márcio voltou, então, a frequentar a Igreja Católica. Ele acredita na presença real de Cristo durante os cultos e é crítico aos padres que celebram o ritual sem paixão, de forma burocrática. Perguntei-lhe se não havia conflitos na fé de um estudioso. “A ordem da razão não tem competência para desestruturar uma experiência da fé. Elas não se conflitam nem se complementam, porque não falam da mesma coisa”, assegurou com tranquilidade. “Gostaria até de entender mais sobre essa relação entre fé e razão, porque acredito que seja isso o que move nossa cultura.”
A volta da crença em Deus, no entanto, foi uma opção que extrapolou os domínios da vida privada. Em sua pesquisa, que trata da relação entre filosofia e ciência, ele incluiu a religião – o que lhe custou a bolsa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, o CNPq. Ele suspeita ter deixado de ser, para a agência, um pesquisador da área da comunicação. Porém, não se arrepende: “Perdi a bolsa, mas ganhei a liberdade.”
Durante os anos em que passou afastado do catolicismo, sentiu necessidade de contato com o extra-ordinário – “assim mesmo, com hífen”, como gosta de ressaltar. Essa falta levou-o a enveredar-se pela poesia e lhe rendeu a publicação de cinco livros. Mas quase não escreve mais: se, por um lado, o reencontro com Deus saciou-lhe a sede pelo transcendente, por outro, desde a volta às aulas para a graduação, conta com um público cativo. “Estou sempre falando com pessoas, de modo que o que eu tenho para dizer, digo para quem está lá para ouvir.”
Não há dúvidas de que Márcio é um dos professores mais queridos da Eco. O professor, que – como todos sabem – deseja morrer em sala de aula, foi paraninfo ou patrono na colação de grau das últimas cinco turmas da escola. Vez ou outra, aparece em curtas e outras produções de alunos, como quando estrelou um comercial de KY só para ajudar um grupo de estudantes em um trabalho final de marketing. “Minha esposa e minha filha têm até ciúmes dos meus alunos”, revelou entre risos. “São os ‘meus aluninhos’, como elas chamam.”
O professor doutor
Muniz Sodré fundou a Eco, dirigiu a Biblioteca Nacional e hoje é Obá de Xangô num terreiro na Bahia
POR CAROLINA CARVALHO
Talvez seja sua modéstia – mesmo sendo um dos maiores nomes da comunicação na América Latina. Ou, ainda, o jeito descontraído com que caminha pelos corredores da Eco. O fato é que o carinho de alunos e professores pelo baiano Muniz Sodré de Araújo Cabral vai muito além de seus títulos. “Sou absolutamente grata a ele”, afirmou a professora Cristiane Costa, com um sorriso largo estampado no rosto. Como outros colegas da UFRJ, ela foi aluna de Muniz Sodré na graduação, além de ter sido sua orientanda no mestrado e no doutorado. “Devo muito a ele, desde aprender a escrever para jornal até ter meus trabalhos acadêmicos publicados”, emendou.
Muniz Sodré é um sujeito alto e de cavanhaque alinhado que se define como um “negro moderno”. Aos 70 anos, os cabelos pretos e espessos começam a aparecer num tom mais grisalho. Ele nasceu em São Gonçalo dos Campos, uma cidade no interior da Bahia que hoje tem pouco mais de 30 mil habitantes. Carrega no currículo mais de 40 livros publicados, além de quase uma centena de artigos científicos. É um dos poucos pesquisadores brasileiros da área que tem circulação e respeitabilidade internacional.
Como professor, sempre tentou extrair o melhor dos alunos. Segundo Cristiane, que hoje ministra técnica de reportagem, a mesma disciplina que cursou com Sodré na UFF, ele é duro em sala de aula – ou pelo menos era, no início dos anos 80. “Quando o lead ficava horrível, ele dizia”, contou a professora, numa sala repleta de alunos que aguardavam para se sentar junto a ela e discutir seus textos. “Não bastava o lead responder às perguntas básicas. Ele tinha que estar ‘sensual’”, lembrou, num tom carinhoso.
Em uma tarde recente, sentando em uma carteira no corredor da Eco, Muniz garantiu que não é rígido como professor, mas analisa as produções dos alunos com apuro. “Quero que eles escrevam”, reforçou, com seu tom de voz levemente rouco. “Quero o vernáculo ali, quero criatividade, mas não sou rígido gramaticalmente.” Os estudantes não precisam se sentir intimidados, pois ele analisa até os próprios escritos. “Eu olho um texto meu e digo ‘rapaz, você com essa idade toda escreve mal, como é que pode?’”
Gustavo Barreto é doutorando em comunicação e cultura e teve aulas com Sodré, a quem deve parte de sua pesquisa. Ele atribui a contextualização de seu trabalho a quatro pensadores, e um deles é o professor da Eco. “A ideia que mais me influenciou é a do quarto bios, grande marco da teoria dele”, explicou, sentado em uma sala de um núcleo de pesquisa da Escola. “Em toda a minha graduação eu li e citei Muniz Sodré.”
O conceito de quarto bios foi apresentado pelo professor no livro Antropológica do Espelho, publicado em 2002 pela editora Vozes. Em linhas gerais, é um complemento aos três ambientes filosóficos citados por Aristóteles – o conhecimento, o prazer e a política. Sodré coloca a mídia como o quarto bios, tratando-a como uma forma de vida, e não apenas um meio de transmitir informações.
A trajetória de Muniz na Eco vem desde a criação da instiuição. Após um decreto do presidente Castelo Branco, em 1967, que criava nas universidades as escolas de comunicação, José Carlos Lisboa, professor da escola de Letras, fundou e se tornou o primeiro diretor da Escola de Comunicação da UFRJ. Localizada ao lado de uma delegacia policial na Praça da Bandeira, entre o Centro e a Tijuca, a instituição já foi inaugurada em condições precárias. “Dando aula, a gente ouvia gritos de presos apanhando”, rememorou Sodré. Lisboa recrutou vários jornalistas e intelectuais interessados na área para impulsionar o novo estabelecimento. No grupo, estavam nomes como Danton Jobim, Luiz Costa Lima, Francisco Antônio Dória e, claro, Muniz Sodré, recém-chegado de um mestrado em sociologia da informação e da comunicação em Paris. O professor teve papel fundamental no início do curso. “Os primeiros currículos são todos montados por mim”, disse, orgulhoso.
José Carlos Lisboa foi sucedido pelo jornalista José Simeão Leal, criador da pós-graduação da Eco, com a ajuda do filósofo Emmanuel Carneiro Leão. Juntos, conseguiram também a transferência da faculdade para a Praia Vermelha, onde está até hoje. “Isso aqui não tinha nada”, lembrou Sodré. “Não tinha equipamento nenhum, mas havia um ambiente intelectual interessante.” Em tempos de ameaça de realocação do curso para o Fundão, ele defende a manutenção da escola na Urca. “Nossa história está nessas paredes”, sustentou.
Entre 1986 e 1990, Muniz Sodré dirigiu a Eco. Nessa época, um dos estudantes era Cláudio Besserman Vianna, o falecido Bussunda. O ex-diretor, que considera ter sido “durão” em seu mandato, foi intransigente com o uso de maconha, mas sem recorrer à polícia. “Eu disse que jogaria na piscina quem estivesse vendendo maconha aqui dentro”, contou, com uma risada. Bussunda e outros alunos se divertiam às custas do pulso firme de Muniz, inventando para ele apelidos como “o fodão da Praia Vermelha” e pregando charges cômicas no mural de avisos.
Quase quatro décadas após chegar à Eco, o professor assumiu a presidência da Fundação da Biblioteca Nacional, a pedidos do então ministro da cultura, Gilberto Gil. A instituição estava passando por uma crise. Sodré digitalizou os mapas, investiu na conservação dos documentos e na restauração de títulos do acervo e trabalhou pela instalação de quase duas mil bibliotecas municipais pelo Brasil. Ele avalia sua gestão como bem-sucedida, mas não voltaria a ocupar o cargo, por causa da burocracia de prestação de contas. “É um péssimo negócio ser gestor público”, queixou-se. “Não quero nunca mais uma carga dessas.”
Engana-se, no entanto, quem pensa que os títulos acadêmicos são as conquistas mais valiosas para o professor. A posição que ostenta com mais orgulho é a de Obá de Xangô no terreiro Axé Opô Afonjá, uma das três casas matrizes do candomblé na Bahia. Jorge Amado e Dorival Caymmi ocuparam o mesmo posto, pertencente hoje também a Gil. A denominação é concedida a um corpo de trinta e seis pessoas encarregadas de cultuar o orixá Xangô e mediar a relação entre o terreiro e a sociedade. “Vejo a possibilidade de sair dali uma filosofia genuinamente brasileira. Estudei filosofia estrangeira, mas isso só serve na medida em que eu possa pensar o Brasil”, destacou.
De olho na celebração de seus 70 anos, comemorados em janeiro, a Eco sediará neste ano uma série de homenagens ao professor. A partir deste mês, o Laboratório de Estudos em Comunicação Comunitária, o Lecc, abrirá rodas de debate sobre suas principais obras. No final de abril, acontecerá a “Semana Muniz Sodré”, um seminário internacional que trará à escola intelectuais como Cícero Sandroni, Alberto Dines, e Henri-Pierre Jeudy. A organização do evento é assinada por Raquel Paiva, coordenadora do Lecc e esposa de Muniz. Desde seu aniversário, de acordo com as leis que regulam o funcionalismo público, Muniz entrou na aposentadoria compulsória. Mas ele já disse que não vai arredar pé da sala de aula. “Eu me aposentei, mas já pedi minha emerência. Não vou parar, quero continuar dando aulas. Vou fazer como o Márcio Amaral, que é um dos melhores professores desta escola”, resumiu.
Quero ser cineasta
Enquanto o curso de Rádio e TV cresce, o debate sobre o nome e o turno da habilitação ganha fôlego
POR PEDRO MUXFELDT
Desde que se somou à equipe da Eco em regime de dedicação exclusiva, a professora Anita Leandro tornou-se uma “cineasta de final de semana”. Há cerca de um ano e meio, ela concilia a montagem de seus projetos pessoais e o trabalho em sala de aula com a coordenação do curso de Rádio e TV. Segundo ela, aliás, a experiência de muitos professores com o cotidiano da produção cinematográfica é um ponto forte do curso. “Houve uma renovação do corpo docente e trouxemos muitos profissionais com experiência não só teórica, mas também prática”, apontou. “São professores que têm uma relação melhor com as novas tecnologias.”
Mesmo assim, entre uma aula e outra, ela contou à reportagem do Ecos que duvida do tão falado crescimento do curso, apesar de reconhecer que ele vem se desenvolvendo. “Acredito que o que mais atrai os alunos é o fato de ser a única habilitação à noite”, especulou ela, que tem mestrado e doutorado em cinema pela Université Paris III. “Então o aluno pode conciliar trabalho e estudo.”
Diego Amorim é aluno de Rádio e TV e tem andado ocupadíssimo. Prestes a se formar, ele divide seu tempo entre a produção de O Farol, seu curta de final de curso, o trabalho no braço brasileiro do Centro de Informações das Nações Unidas e a organização das atividades do Cinerama. No dia em que lhe entrevistei, ele estava às voltas com os últimos ajustes para uma sessão pioneira do cineclube no Campinho, que exibiria o documentário de Martin Scorsese sobre a vida do beatle George Harrison. Para Diego, o projeto está ajudando a estabelecer uma “cultura de cinema” na escola.
“O Cinerama já existe há muito tempo, mas de uns tempos para cá, se reinventou”, explicou. “Hoje, auxiliamos na divulgação dos trabalhos dos formandos em eventos como a Ecomostra e o Prata da Casa. Isso estimula o aluno a produzir e a ingressar na habilitação.” O cineclube, porém, tem planos ainda mais audaciosos: o próximo passo será a criação de uma produtora.
“A ideia ainda é embrionária, mas o objetivo é ter material próprio para ceder aos alunos”, contou Diego num tom otimista. Como primeiro passo, o Cinerama em breve passará a ocupar a sala da CPM onde funcionava o Pontão de Cultura. Com endereço físico, o grupo buscará então se transformar em uma empresa júnior, uma das condições si ne qua non para o estabelecimento da produtora.
Uma questão, no entanto, ainda segue atormentando alguns dos alunos do curso: a nomenclatura da habilitação. Quando Anita assumiu a coordenação, a mudança do nome foi acordada entre os professores e bastaria um aviso ao reitor para que o atual nome de radialismo cedesse lugar à denominação de audiovisual. “A questão tem muitos poréns”, suspirou a professora. “Fizemos consultas com os sindicatos de cinema e o de radialistas, que também representa os profissionais de televisão. Os dois sugeriram a manutenção do nome.” O motivo é simples: ao obter um diploma em radialismo, o profissional está liberado para exercer até 74 funções. Já alguém formado em audiovisual só pode começar a trabalhar como assistente de direção.
Diego se surpreendeu quando soube do dilema. Mesmo assim, mostrou-se favorável à mudança. “Poderemos reivindicar mais mudanças no curso, como acabar com matérias já obsoletas e abrir espaço para disciplinas mais práticas”, opinou. Ciente da complexidade da questão, Anita planeja chamar representantes dos dois sindicatos para debater a situação com os alunos. Ao receber a notícia, Diego animou-se. “Um debate é essencial. Os alunos precisam ser informados para formarem uma opinião mais concreta sobre o tema”, disse.
No início de maio, uma reunião do Condep, o Conselho Departamental, reuniu a diretora da Eco Ivana Bentes, Anita e outros professores e representantes do Caeco. A nomenclatura do curso entrou na roda de discussões, mas o nome Rádio e TV permaneceu – pelo menos, por enquanto. Diego criticou a decisão. “Não entendi por que voltaram atrás. Parece que alguns lados da Eco permanecem agarrados ao osso do funcionalismo público, querendo a conservação do que já existe”, atacou.
A professora Anita garantiu ser “totalmente favorável” à troca. “O que acontece é que, devido às questões trabalhistas, optamos pela cautela”, explicou, depois que rumores nas redes sociais apontaram que ela teria se posicionado contra a alteração. “Vamos levar o caso ao Ministério da Educação e à Delegacia do Trabalho para que possamos efetuar a mudança sem prejudicar nossos alunos.”
Outra questão que foi pauta na reunião foi o turno do curso. Segundo Anita, o Mec exige uma definição precisa – atualmente, as aulas ocorrem à tarde e à noite – e o Condep sugeriu transformar a habilitação em exclusivamente noturna. “Para os alunos que trabalham, é o ideal. Contudo, o curso teria que durar um ano a mais. Precisamos ver se isso interessa aos alunos”, ponderou a coordenadora. Em seu último ano de faculdade, Diego também comentou a proposta: “A mudança nos será benéfica, mas não altera o programa pedagógico. O que precisamos é de disciplinas novas e de materiais técnicos de melhor qualidade”, enfatizou.
O rango está (quase) na mesa
A saga da comissão responsável por encontrar um lugar para o bandejão da Praia Vermelha
POR DÉBORAH COUTINHO
Além de um bandejão para a Praia Vermelha, a comissão analisaria também a instalação de restaurantes universitários no Centro de Tecnologia e em unidades como Xerém e Macaé. Ao mesmo tempo, a UFRJ se comprometia em ampliar a capacidade dos bandejões já existentes, oferecendo também jantar para os alunos do turno da noite.
POR DÉBORAH COUTINHO
Era uma tarde quente de setembro na Ilha do Fundão. A sala do Consuni, o Conselho Universitário, estava apinhada de gente – muito mais do que seus cerca de 50 membros habituais. Alunos de vários cursos se apertavam entre as cadeiras e se espremiam nos corredores. A sessão estava se aproximando do fim e o clima geral era de grande tensão. Do lado de fora, outras dezenas de estudantes acompanhavam a assembleia por uma televisão, enquanto frases como “Cumpra suas promessas, Levi!” e “Vamos votar logo” entrecortavam as falas oficiais que saíam pelas caixas de som.
Haviam sido três semanas exaustivas de mobilização estudantil. Inaugurado com um “ato-almoção” capitaneado pelo DCE, o período continuou com seguidas ocupações, pelos estudantes, de sessões do Consuni. O objetivo era colocar em pauta – e aprovado – o projeto do restaurante universitário para as unidades isoladas da UFRJ, com destaque a um pedido de prioridade para a Praia Vermelha. Naquela quinta-feira de setembro, muitos estudantes chegaram ao Fundão com sacos de dormir dentro das mochilas. Se mais uma vez os conselheiros encerrassem a sessão, havia fortes chances de que eles não deixassem o prédio da reitoria.
A votação, no entanto, foi inevitável, assim como a aprovação da proposta. Estudantes explodiram em brados e aplausos. Do lado de fora, os confortáveis sofás viraram palanques para os líderes discursarem. Depois de muita comoção, os alunos seguiram Reitoria afora cantando “Nas ruas, nas praças/ quem disse que sumiu?/ Aqui está presente o movimento estudantil!”.
Três semanas depois, o Consuni publicou uma resolução cujo primeiro artigo consistia em adotar ações para fortalecer as políticas de assistência da UFRJ. Em relação aos restaurantes universitários, o conselho exigiu a criação de uma comissão paritária composta por representantes de estudantes, de funcionários técnico-administrativos, de docentes e da Reitoria para estudar a viabilidade dos bandejões e propor um cronograma das obras. Na aprovação, ficara acertado que a maior parte do dinheiro para o projeto viria da economia que a UFRJ teve em 2011 com os custos do vestibular, uma vez que a universidade adotou o Enem como forma única de acesso aos seus cursos de graduação.
Além de um bandejão para a Praia Vermelha, a comissão analisaria também a instalação de restaurantes universitários no Centro de Tecnologia e em unidades como Xerém e Macaé. Ao mesmo tempo, a UFRJ se comprometia em ampliar a capacidade dos bandejões já existentes, oferecendo também jantar para os alunos do turno da noite.Até o fim do ano, o tema esmoreceu. Mas na primeira segunda-feira de fevereiro os membros da comissão reuniram-se na mal conservada sala do DCE: era hora de iniciar a discussão das propostas. O encontro começou com apresentações e pequenas conversas entre amigos. A ideia era fazer um diagnóstico de como andava o sistema de alimentação da Praia Vermelha e identificar opções para melhor acomodação do restaurante universitário.
Encabeçados pelo presidente da comissão, o professor Antônio Oliveira, o grupo saiu em uma expedição pelo campus, buscando possíveis locais para a implantação do bandejão. A princípio, as sugestões foram os restaurantes já existentes, como o do DCE e o antigo Restaurante do Campus, o que faria com que a obra fosse menos custosa e mais rápida. Mas também foram considerados espaços como uma área abandonada próxima ao Instituto de Neurologia e outra no campinho, perto da Editora UFRJ.
O grupo visitou também o prédio onde até recentemente funcionava o Bingo Botafogo. O espaço, próximo à Casa da Ciência que foi retomado pela Universidade, está abandonado. Se depender da comissão, no entanto, não por muito tempo. De todos os lugares inspecionados, foi o que mais agradou.
O arquiteto da UFRJ Walter Rufino pontuou que, por ser afastado dos prédios de ensino, o espaço poderia ser considerado muito distante pelos alunos. Lúcia Andrade, diretora do sistema de alimentação universitário, concordou e acrescentou que isso dificultaria que os alunos comessem no período entre aulas. Considerou, no entanto, que como não havia local mais próximo, seria a melhor opção: o lugar tem acessibilidade para pessoas e também para caminhões que trarão os alimentos e recolherão o lixo, além de espaço suficiente para o salão onde serão servidas as refeições.
Tadeu Lemos, representante dos estudantes na comissão, apoiou a decisão. “Com a retomada do Canecão e a proximidade da Casa da Ciência, a área tende a virar um complexo cultural, o que tornará o local mais movimentado e com demanda ainda maior por alimentação barata para alunos e funcionários”, sustentou.
Oliveira encerrou a reunião com a definição de prazos para a entrega de diagnósticos técnicos. Quando lhe perguntei sobre uma solução de curto prazo para os estudantes, ele acenou com a possibilidade de concessão de auxílio financeiro. Mas logo acrescentou: “Isso vai ser um problema porque não podemos dar para os alunos que já recebem bolsa assistência. Por outro lado, quais serão os critérios para alguma concessão de benefício? Isso é uma coisa que eu não vou propor unilateralmente”, explicou o professor, também superintendente de políticas estudantis. “Quero que a ideia seja lançada nos próximos encontros e, se for o caso, é a comissão que fará uma proposta.”
Televisão tupiniquim
O que diz a lei que polemizou o mercado ao definir cotas de programação nacional nos canais por assinatura
POR BRUNA AGUIAR E GABRIELA PANTALEÃO
No último mês de março, a Agência Nacional de Telecomunicações bateu o martelo e aprovou definitivamente a lei que deve trazer profundas alterações no mercado audiovisual do país. A Lei da TV Paga, como ficou conhecida, estabelece cotas obrigatórias de produção nacional nos canais por assinatura, e permite a entrada das empresas de telefonia nos serviços de distribuição de sinais de televisão. No fim do ano passado, o texto já havia sido aprovado no Legislativo, depois de mais de cinco anos de discussão. Agora, aguarda apenas regulamentação da Agência Nacional do Cinema, a Ancine, que será a responsável pela fiscalização da lei.
Segundo as novas regras, haverá um processo gradativo de aumento da cota nacional, que inicialmente deverá ocupar 70 minutos da grade semanal. Até 2014, no entanto, essa fatia aumentará para três horas e meia nos canais que forem considerados qualificados para tanto, o que corresponde a pouco mais de 2% da programação. Ainda de acordo com o texto, pelo menos metade desse tempo deverá ser composto por atrações de produtoras independentes.
A Globosat, uma das gigantes do ramo, já tem acordo com mais de cem produtoras brasileiras independentes. Segundo o responsável pela distribuição da empresa, Fernando Ramos, o grupo usará essa relação com os produtores para cumprir a regulamentação. “Tudo vai acontecer de forma planejada e de acordo com a gradualidade estabelecida pela lei”, explicou. Canais como GNT e Multishow já estão preparados para as mudanças, uma vez que suas grades já contam com diversos programas nacionais. Os grandes afetados serão aqueles com conteúdo praticamente todo estrangeiro, especialmente canais de filmes, séries e animações. O TNT e o Cartoon Network já vêm investindo em conteúdo brasileiro há algum tempo. Já o Boomerang, voltado para adolescentes entre dez e dezessete anos, aposta em reality shows como o Temporada de Moda Capricho, que já teve três edições.
Emissoras mais ligadas a programas de humor, como a Warner, também tentam encontrar soluções. Mas a tarefa não parece ser fácil, já que o Brasil tem um estilo humorístico bem diferente do que aparece em séries tradicionais como Friends e Two and a Half Men. Para os canais repletos de seriados, no entanto, não haveria sentido criar variantes brasileiras de séries como House ou Law & Order, pois o investimento seria injusto, se comparado com os orçamentos de bilhões de dólares de que já dispõem essas produções em suas versões originais. À exceção do espectro de TV aberta e dos programas e canais esportivos e jornalísticos – que não entram na lei –, cada canal vai ter liberdade para escolher que obras nacionais irá veicular e a que horas, desde que seja dentro do horário nobre.
Além disso, nos pacotes de TV por assinatura, a cada três canais oferecidos pelas empresas, um deverá ser nacional. “A regulamentação prevê também um fundo de financiamento às produções brasileiras, que tem como principal objetivo suprir as novas demandas dos canais por assinatura que ainda não produzem conteúdo nacional suficiente”, explicou o professor da Eco Marcos Dantas, que foi um dos colaboradores do texto da lei. Ele acredita que, com a entrada em vigor, será possível tornar a televisão por assinatura um espaço plural e que estimule a produção audiovisual nacional. De fato, os países que são referências mundiais no setor, como os Estados Unidos, já possuem leis do tipo. “Estávamos atrasados em compreender a importância de regular o audiovisual de forma mais completa e eficiente”, apontou.
Por isso, é esperado ainda um forte impacto no mercado de trabalho do setor, já que a demanda por profissionais da área, entre roteiristas, produtores e artistas, também deverá crescer. Na prática, a lei é a primeira experiência de um marco regulatório convergente para a comunicação audiovisual no Brasil. “Para mim, é um grande orgulho ter participado da formulação de uma lei como esta, que pode servir de modelo para um futuro marco regulatório brasileiro do audiovisual como um todo, um que seja adequado às condições e demandas do setor”, afirmou o professor.
Outro benefício esperado para o público será o barateamento do acesso à televisão por assinatura, que deve, portanto, atingir uma parcela maior da população. Como as empresas de telefonia passam a poder oferecer o serviço, espera-se que o aumento da competição leve a uma queda nos preços. De fato, as empresas de telecomunicações se adiantaram e já oferecem contratos de TV. Gigantes no mercado como a Claro e a GVT, que antes só vendiam pacotes de internet e telefone, também passaram a disponibilizar a novidade a preços bastante acessíveis.
O grupo Sky, um dos maiores distribuidores do país, fez uma campanha para que o público protestasse contra a Lei da TV Paga. Produziu um vídeo estrelado por atletas de equipes patrocinadas por ela própria. “Esse assunto é relevante para a sociedade, pois é o início de uma grave intervenção nos meios de comunicação”, diz o jogador de vôlei Giba na gravação. A empresa afirma que há uma intromissão do poder público na liberdade de escolha do consumidor. No Legislativo, por sua vez, o principal partido de oposição à aprovação da lei foi o Democratas. Um de seus principais argumentos diz que as novas atribuições de regulação, fomento e fiscalização delegadas à Ancine são inconstitucionais por configurarem um controle excessivo do executivo na esfera privada. Porém, segundo sustentou o consultor jurídico do Ministério das Comunicações, José Flávio Bianchio, “o serviço de comunicação audiovisual de acesso condicionado é um serviço público delegado para ser executado nos termos e condições estabelecidos pelo ente detentor da titularidade”.
Em meio à polêmica generalizada aberta pela aprovação da lei, o presidente da Associação Brasileira de Produtoras Independentes de TV, Marco Altberg, tranquilizou os telespectadores, dizendo que nada vai mudar da noite para o dia. “É como se estivéssemos iniciando um novo momento no negócio de TV por assinatura”, explicou em entrevista à Revista da TV. Ele acredita que estamos diante de uma chance de fazer uma programação de conteúdo brasileiro voltada também para um novo consumidor, da classe C. Resta esperar que o tempo traga as respostas.
O que será do amanhã?
O cabo-de-guerra que impede a reabertura do Canecão mais de um ano depois de sua retomada
POR BERNARDO PEREGRINO E JONAS MOURA
POR BERNARDO PEREGRINO E JONAS MOURA
Em seu sucesso Emoções, Roberto Carlos disse que lá vivia “momentos lindos”. Desde outubro de 2010, porém, nem Roberto nem ninguém sentiu a emoção de pisar no palco que marcou a carreira do Rei e consagrou gerações da música brasileira. A causa é um imbróglio jurídico que vem impedindo qualquer ação da UFRJ desde a retomada do espaço conhecido durante mais de quatro décadas como Canecão. Para piorar o quadro, não há consenso dentro da universidade sobre o tipo de gestão a ser adotado. Enquanto isso, mídia e classe artística fazem pressão por uma rápida solução do caso.
“O xis de toda a questão é esse ar de abandono do espaço”, disse Hélcio Gomes, diretor da Divisão de Gestão Patrimonial da UFRJ, em uma tarde ensolarada de janeiro. A administração da casa era responsabilidade do empresário Mário Priolli que, mesmo após a reintegração de posse determinada pela justiça em 2010, ainda não retirou seus bens do imóvel, como os equipamentos de luz e som. Hélcio, escolhido pela justiça como fiel depositário dos bens, afirma que a UFRJ só poderá dar uma destinação à área após a remoção do material. “Mas mesmo que a justiça determine a retirada, o ex-inquilino entra com liminares e atrasa ainda mais o processo. É uma situação bastante chata”, lamentou, sentado em sua sala no prédio da reitoria.
Os problemas causados por Priolli vêm de longa data. Em 1965, ele arrendou o terreno, que pertencia à extinta Associação dos Servidores Civis do Brasil. Em 1967, porém, a União doou a área ao campus da Praia Vermelha, que já existia desde 1950. No entanto, o Canecão – à época ainda uma cervejaria – recusou-se a desocupar o local. Era o início da luta. Em 1971, a universidade entrou na justiça para tentar ganhar a posse do terreno. Enquanto o processo andava, com o estabelecimento de diversos acordos de locação, a casa se consolidava como uma das mais importantes da América Latina. Recebeu shows memoráveis de artistas como Maysa, Maria Bethânia, Chico Buarque, Miles Davis, Ray Charles e muitos – muitos mesmo – outros.
Durante todos esses anos, a UFRJ diz ter sido vítima de um gigantesco calote. A empresa de Priolli alega ter depositado o valor do aluguel em juízo, o pela justiça até que haja uma decisão final. Mas Hélcio contra-argumenta, dizendo que o terreno já era explorado há anos sem que a universidade recebesse um centavo por isso. Segundo ele, apenas os primeiros contratos teriam gerado alguma receita para a UFRJ.
O histórico obscuro do empresário não para por aí. Para conseguir o patrocínio da Petrobras em 2007, ele teve de refundar a casa de shows, criando a Canecão Promoções e Eventos LTDA. Isso porque a antiga razão social, a Canecão Promoções e Espetáculos Teatrais, carregava consigo débitos previdenciários com o INSS que chegavam a três milhões de reais, o que inviabilizaria a parceria com a estatal. Em 2008, quando o escândalo veio à tona, a petroleira retirou o patrocínio da casa. Priolli tem também uma série de dívidas com artistas e com o Ecad, órgão responsável pelo recolhimento dos direitos autorais.
“Olhando para trás, o saldo é absolutamente negativo. São 40 anos de calote”, avaliou Kenzo Soares, diretor cultural da gestão passada do DCE e também integrante do diretório recém-empossado. O movimento estudantil propõe uma gestão integralmente pública, popular e democrática, que beneficie não só alunos da UFRJ, mas também artistas populares sem espaço para se apresentar, que poderiam concorrer com projetos em um modelo de editais. De qualquer forma, Kenzo acredita que a universidade tenha produção cultural suficiente para ocupar a casa, seja com os espetáculos do curso de direção teatral ou com os trabalhos dos alunos da Eba, a Escola de Belas Artes.
Embora seja defendida por muitos alunos e também pela Adufrj, a proposta encontra resistência em diversos setores que não acreditam na competência da universidade para gerir o espaço. A reitoria, segundo Hélcio, pretende apresentar no Consuni uma proposta de gestão partilhada, que permitiria à UFRJ utilizar o local para atividades acadêmicas de segunda a quinta-feira, enquanto no resto da semana uma gestão empresarial estabeleceria a programação da casa, nos moldes do antigo Canecão. Ele destacou que a pressão da sociedade pela reabertura é enorme – e só vem crescendo com a lentidão da justiça. “Desde a reintegração eu recebo telefonemas de vários empresários”, revelou. “A universidade está tentando, junto com a procuradoria, agilizar esse processo de desocupação.”
Quando lhe perguntamos, em uma manhã recente, sobre a posição do DCE frente à proposta da reitoria, Kenzo alegou que já existem espaços privados com a mesma função na cidade. Ele reforçou que o papel da universidade pública não deve se limitar à graduação e à pesquisa: deve ter, também, um viés de extensão e aplicação prática do conhecimento em benefício da comunidade acadêmica e da população. “Uma gestão completamente pública, em um sistema até mesmo de parceria com outras universidades, só reforçaria a vocação cultural da UFRJ. Se até a Uerj consegue gerir o teatro Odylo Costa Filho, por que nós não podemos?”, defendeu.
Em meio à disputa, uma terceira proposta surgiu com o projeto do professor Carlos Vainer, que é membro do Comitê Técnico do Plano Diretor 2020. O que ele sugere é uma administração exclusiva da universidade, por meio de uma fundação que também cuidaria da política cultural da UFRJ. No entanto, isso aconteceria sem fechar a porta aos interesses privados. “Recebemos o Canecão. E o que a gente quer fazer? Um espaço público voltado para a arte, para a educação. Mas temos que entender que uma parcela da cidade vê aquilo como um espaço da música comercial, do grande show”, sustentou.
Uma das possibilidades consideradas em seu projeto é o aluguel do espaço para a realização de eventos privados, como os antigos shows. A ideia é que isso garantiria um autofinanciamento da casa. Vainer ressaltou que o ex-Canecão seria, assim, uma peça do projeto que prevê a transformação do campus da Praia Vermelha num centro de convenções, diretriz presente no plano diretor, mas cercada de muita polêmica.
Enquanto isso, o reitor Carlos Levi confirmou ao jornal O Globo que a proposta da UFRJ será a de gestão partilhada. Mesmo sem consenso, a instituição já contratou o produtor Adonis Kharan, que trabalhou na TV Globo e na extinta TV Tupi, para fazer sondagens no mercado sobre as possibilidades de uso do espaço. Hélcio Gomes justificou que o levantamento é apenas para discutir a proposta com a comunidade acadêmica. O movimento estudantil, por sua vez, está engajado em aprovar no primeiro Consuni do ano uma comissão paritária entre professores, alunos e funcionários que seja responsável por formular o projeto de gestão do Canecão.
A Reitoria já encomendou projetos para obras emergenciais na casa, deteriorada pelo longo período sem uso. Está fazendo também um levantamento de custos para viabilizar sua reabertura. Além disso, o ex-Bingo Botafogo, também recuperado pela universidade e vizinho do ex-Canecão, foi reformado e ocupado com uma exposição da Casa da Ciência – “exemplo de como a UFRJ tem capacidade cultural de retomar um espaço”, segundo Kenzo. O certo é que, a curto prazo, haverá muitas emoções – se não iguais, ao menos tão intensas quanto as de Roberto Carlos.







